Movimentos lutam pelo encerramento da central nuclear de Almaraz

A central nuclear de Almaraz localiza-se no município de Almaraz, província de Cáceres, na comarca de Campo Arañuelo. Começou a ser construída em 1972 sendo constituída por dois reatores. O Almaraz I começou a operar em 1981, a uma potência de 973,5 MW, e o Almaraz II, entrou em funcionamento em 1983, com uma potência de 982,6 MW. A central ocupa uma área de 1.683 hectares, pertencendo às empresas Iberdrola, Unión Fenosa e Endesa. As instalações encontram-se a 100 km da fronteira de Portugal, junto ao rio Tejo e aos distritos de Portalegre e Castelo Branco (QUERCUS, 2013; WIKIPÉDIA, 2015).

Em Espanha, várias organizações ambientalistas posicionam-se há muito tempo contra o funcionamento da central de Almaraz, temendo acidentes radioativos, e lutando pelo seu encerramento. Há mais de 30 anos em funcionamento, a central apresenta um risco grave de contaminação, já que as suas instalações e equipamento são considerados absoletos.

 

A proximidade da central junto à fronteira com Portugal faz com que as entidades ambientalistas e a população das cidades portuguesas mais próximas apoiem as reivindicações de fechamento. As consequências desastrosas que Portugal enfrentaria no caso de um acidente nuclear em Almaraz, como a contaminação radioativa da parte portuguesa do rio Tejo, foram já discutidas em diversas ocasiões na localidade. A possibilidade de danos a Portugal foi reafirmada por uma representante da associação internacional Greenpeace, em setembro de 2007, nas vésperas de um protesto convocado por várias organizações espanholas e do qual também participou a Associação Nacional de Conservação da Natureza-Quercus. Nesta ocasião, a representante da entidade internacional ressaltou a existência de risco de acidente grave na central, o qual, além de contaminar as águas do Tejo, também afetaria Portugal através da radioatividade na atmosfera, que poderia ser levada pelos ventos para o resto do país. De fato, a central de Almaraz já ultrapassou o prazo de vida útil previsto para centrais nucleares, que é de 25 anos, e acidentes ocorrem com certa frequência, forçando por diversas vezes o seu encerramento temporário (DN, 2007; GUIMARÃES e FERNANDES, 2016).

 

No ano de 2009, um jornalista português visitou as imediações da central de Almaraz para conversar com as pessoas que viviam nesta localidade. Os seus relatos revelaram que tinha acontecido um acidente na central em 1988, causando abortos em animais e doenças, além de malformação em crianças. Segundo um morador, cujo filho foi vítima de um cancro causado pela radiação, naquele ano, 146 crianças nasceram com malformações, 80% delas morreram. Os representantes da empresa, porém, negam que haja relação entre este fato e o acidente na central (ALMEIDA e VIEGAS, 2009).

 

Em setembro de 2011, ocorreu uma nova manifestação contra a decisão do governo de Madrid em protelar, por mais de uma vez, o encerramento da central nuclear prevista para o ano de 2010. Na ocasião estiveram reunidos vários movimentos e associações espanholas e portuguesas, entre as quais a associação ambientalista Quercus, e o Partido Ecologista Os Verdes-PEV, a Plataforma Antinuclear Cerrar Almaraz, Plataforma Refinería No, Plataforma Cementério Nuclear No, Ecologistas en Acción Extremadura, Asociación para la Defensa de la Naturaleza y los Recursos de Extremadura Cerrar Almaraz-ADENEX, Fundo para a Proteção dos Animais Selvagens-FAPAS, Liga para a Proteção da Natureza-LPN, CAC-CGT, Esquierda Anticapitalista, Juventudes Comunistas, Izquierda Unida, Associacion Juvenil El Garabato, Sodepaz e Grupo Retama (LUSA, 2011; TSF, 2011.).

 

Em abril de 2013, no 27º aniversário do acidente de Chernobyl, a Quercus chamou a atenção para o fato de que os testes de segurança que tinham sido realizados em Almaraz havia pouco tempo, para tranquilizar a opinião pública, terem sido muito insuficientes. Os testes tinham considerado apenas os dados sobre os sismos que tinham ocorrido desde 1970, ou seja, os resultados apresentados não consideraram a possibilidade de ocorrência, no futuro, de sismos de elevada amplitude, como o de 1755 e de 1954, este último com epicentro em Espanha e com uma magnitude de 7,9 na escala de Richter. Não tinham sido consideradas sequer as consequências que os impactos sísmicos teriam na barragem de Arrocampo, de onde provém a água usada no arrefecimento da central nuclear (QUERCUS, 2013).

 

O acidente no Japão serviu igualmente de termo de comparação para o Greenpeace denunciar a falta de cooperação na troca de informações vitais entre Portugal e a Espanha, no que diz respeito à atividade e aos testes de segurança, apesar de ser público o envolvimento do exército português em exercícios militares conjuntos perante situações catastróficas tendo como cenário a central de Almaraz (DGAI, 2014).

 

As manifestações de alerta da opinião pública para os danos já causados pela central nuclear em Almaraz e para os graves riscos iminentes repetem-se periodicamente. Os grupos que reivindicam o encerramento da central encontram-se aliados a outras lutas antinucleares em Espanha, constituindo uma Associação de Municípios em Áreas de Centrais Nucleares-AMAC. Em dezembro de 2014, os membros da associação  concentraram-se em protesto frente ao armazém de resíduos radioativos de El Cabril, em Hornachuelos (Córdoba) (ENERGIADIÁRIO, 2014).

 

Em maio de 2015, uma vistoria à central revelou que ela não reunia todas as condições de segurança para operar, demonstrando falhas de prevenção na vigilância contra incêndios. Também os seus reatores contam já com 35 anos, 5 a mais do tempo de vida recomendado (MATIAS, 2016; SPUTNIK, 2015; ALVES, 2016).

 

Em 2016, este tema voltou a entrar na agenda política em Portugal, através da pressão exercida pelos partidos Bloco de Esquerda-BE e Partido Pessoas Animais Natureza-PAN, que apresentaram projetos de resolução na Assembleia da Rúpública-AR, no sentido de pôr fim ao funcionamento desta central.

 

Só nos primeiros três meses do ano, a central nuclear de Almaraz registou pelo menos três avarias, fazendo acionar o Conselho de Segurança Nuclear-CSN de Espanha. Os técnicos que se deslocaram ao local declararam não haver garantias suficientes de que as bombas de água do sistema de serviços essenciais da central operassem com normalidade (ALVES, 2016). Também se registaram já várias queixas relacionadas com a utilização das águas do rio Tejo para o arrefecimento da central nuclear, por parte tanto das populações ribeirinhas quanto dos movimentos ambientalistas, que falam do aumento da poluição das águas do Tejo que chegam a Portugal, agravada por um défice de fiscalização, e por um caudal diminuído. Apesar das recentes avarias, o governo espanhol decidiu manter Almaraz em funcionamento, alegando não haver motivos suficientes para o seu fecho (AGÊNCIA LUSA, 2016; ESQUERDA.NET, 2016).

 

Um eurodeputado português recorreu à diretiva sobre a segurança nuclear de 8 de julho de 2014, que regula o funcionamento das instalações nucleares da UE, para requerer a atuação da CE face às decisões de Espanha quando existem ameaças de impactos transfronteiriços (JN, 2016).

 

Foi aprovado em abril de 2016, uma resolução da AR, que solicita o governo português a tomar diligências nesta matéria (OLIVEIRA, HENRIQUES e MARUJO, 2016). No Parlamento Europeu-PE, duas deputadas portuguesas questionaram a resposta da CE sobre esta matéria, exigindo maiores esclarecimentos acerca das razões que levaram a adiar para 2017 a transposição da Diretiva 2014/87/Euratom, que estabelece requisitos em segurança nuclear para as instalações nucleares. Ainda um outro deputado europeu português questionou a CE sobre as garantias de segurança nuclear e a sua supervisão, com particular incidência na central nuclear de Almaraz. Em resposta, Bruxelas remeteu para o domínio exclusivo dos estados-membros a função de assegurar o cumprimento das diretivas e supervisionar o funcionamento das centrais e a avaliação dos incidentes verificados (PE, 2016; ESQUERDA.NET, 2016b; DIANAFM, 2016).

 

Está tambem configurado Almaraz como um conflito transfronteiriço sobre a utilização da água do rio Tejo, porque o reator se refrigera com a água de Arrocampo, do río Tejo, o que afeta o curso normal do mesmo e seria também o meio de transmissão da radiatividade para um hipotético acidente. (Ejoltatlas, 2016).

 

Teve lugar um protesto no dia 11 de junho de 2016 em Cáceres, reunindo milhares de pessoas denominado “Fechar Almaraz, que descanse em paz”, convocado pelo primeiro encontro ibérico do movimento pelo encerramento da central nuclear de Almaraz, e que contou com a presença de mais de 500 portugueses (GARCIA, 2016).

 

Bibliografia

 

ALMEIDA, Orlando; VIEGAS, Patrícia. O meu vizinho é uma central nuclear. Diário de Notícias-DN, 5 dez. 2009.

 

 

ALVES, Costa. Cata-ventos: Almaraz faz pensar em Chernobil e em Fukushima. Reconquista, 17 mar. 2016.

 

AR. Pelo encerramento da central nuclear de Almaraz. Assembleia da República-AR, Moção 02/106 (BE), 10 mai. 2016.

 

DIANA FM. Bruxelas: Comissão Europeia confirma receios de Carlos Zorrinho sobre central nuclear, 29 abril 2016.

DGAI. Miguel Macedo participa em exercício internacional de resposta de emergência em caso de acidente nuclear, Direção-Geral de Administração Interna-DGAI, 8 jul. 2014.

 

DN. Protestos contra central nuclear espanhola. Diário de Notícias-DN8 set. 2007.

 

EJATLAS. Nuclear power station in Almaraz, Spain, Environmental Justice Atlas_EjAtlas, 2016.

 

ESQUERDA.NET. Almaraz é uma central envelhecida e de risco, Esquerda.Net, 20 mar. 2016a.

 

ESQUERDA.NET, Almaraz: Ana Gomes e Marisa Matias voltam a questionar a Comissão Europeia, Esquerda.Net, 2016b.

 

ENERGIADIÁRIO. Municipios con actividades nucleares se concentrarán ante El Cabril en contra de suprimir la Fundación Enresa. 5 dez. 2014.

 

GARCIA, José Carlos. Manifestación antinuclear, Portugal y España por el Cierre de Almaraz - Cáceres, 11 jun. 2016. Youtube. 12 jun 2016.

 

GUIMARÃES, Paulo E.; FERNANDES, Francisco R. Chaves. Capítulo 1: Os conflitos ambientais em Portugal (1974-2015): uma breve retrospectiva, p. 19-64. In: GUIMARÃES, Paulo Eduardo; CEBADA, Juan Diego Pérez (coords.). Conflitos ambientais na indústria mineira e metalúrgica: o passado e o presente. Rio de Janeiro - Évora. 2016.

 

INFORMACION. Municipios con actividades nucleares se concentrarán ante El Cabril en contra de suprimir la Fundación Enresa, Portal Informacion.com?? 8 dez. 2014.

 

JN. Zorrinho questiona Bruxelas sobre falhas da central nuclear de Almaraz. 9 mar. 2016.

 

LUSA. Uma centena de pessoas em protesto contra funcionamento da central de Almaraz. RTP Notícias, 17 set. 2011.

 

LUSA. Ambientalistas defendem que Portugal deve insistir no fecho da central de Almaraz. Público, 22 mar. 2016.

MATIAS, Carlos. Risco de catástrofe na central nuclear de Almaraz, 22 mar. 2016.

 

OLIVEIRA, Octávio Lousada; HENRIQUES, João Pedro Henriques; MARUJO, Miguel. Parlamento aprova proposta para encerrar central nuclear de Almaraz, 29 de abril de 2016.

 

PAN. PAN questiona Agência Portuguesa do Ambiente sobre situação na central nuclear de Almaraz, PAN-Partido dos Animais e da Natureza, 4 de fev. de 2016.

 

PE. Perguntas Parlamentares de Ana Gomes e Marisa Matias, Resposta dada por Miguel Arias Cañete em nome da Comissão, Parlamento Europeu-PE, 25 de abril de 2016.

 

QUERCUS. Quercus volta a exigir o encerramento da central nuclear de Almaraz, junto à fronteira de Portugal. Associação Nacional de Conservação da Natureza-Quercus, 25 abr. 2013.

 

SPUTNIK. Escândalo ecológico surge perto da fronteira portuguesa, denuncia o Greenpece, SPUTNICK, 30 jun. 2015.

TSF. Ambientalistas lusos em protesto pelo encerramento da central espanhola de Almaraz, TSF, 17 set. 2011.

 

WIKIPÉDIA. Central nuclear de Almaraz, 9 fev. 2015.

 

30 de junho de 2016

GENERAL INFORMATION

 

Period: 1972 -

Region: Spain

District: Cáceres

Localization: Almaraz, Spain

Intensity level: 5/5

GPS: 39.807667, -5.689894

 

ABSTRACT

The Almaraz nuclear plant is the oldest one in Spain. It began to operate in 1981 and is located on the banks of the Tagus River, only 100 km from the Portuguese border. It poses serious risks and several Portuguese environmentalist organisations have joined the protests held in Spain to demand its closure.

Maps

Movements fight to close the Almaraz nuclear power plant

Under construction

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