Lince-ibérico de volta à floresta de

Portugal

Mapa

INFORMAÇÕES GERAIS

 

Duração: 1979 - 1981

Região: Centro

Distrito: Castelo Branco

Localização: Serra da Malcata

Grau de intensidade: 4/5

GPS: 40.279029, -7.028285 (Serra da Malcata)

RESUMO

Protagonista de uma das maiores campanhas de defesa ambiental em Portugal, em 1979, o lince-ibérico venceu a indústria da celulose na Serra da Malcata. Apesar de protegido por uma reserva natural, fatores externos quase levaram à sua extinção nas duas décadas seguintes. No entanto, os projetos de conservação que unem hoje Portugal e Espanha, através dos centros de reprodução em cativeiro, conseguiram devolver o lince-ibérico à floresta. Apesar do sucesso desta iniciativa, o governo autorizou em fevereiro de 2016 a caça na Serra da Malcata, o que tem vindo a ser fortemente contestado por várias organizações e por partidos políticos como o Bloco de Esquerda-BE e o Partido Pessoas-Animais-Natureza-PAN, que fizeram aprovar em abril na AR duas propostas de defesa da proibição da caça.

Considerado por uma década e meia – de 1992 a 2015 – como uma espécie em alto risco de extinção, o lince-ibérico tem visto a sua população aumentar graças aos esforços conservacionistas que unem Portugal e Espanha. Se até ao século XIX, o lince se encontrava distribuído por quase toda a península ibérica, já em 1950 a sua distribuição reduziu e dividiu--se em duas populações – uma nortenha, abrangendo partes da Galiza e do norte de Portugal, e outra no sul, em várias regiões de Espanha – e, entre 1960 e 1990, a presença do lince sofreu uma regressão de cerca de 80%, tendência que se manteve até à atualidade (CLAVERO; DELIBES, 2013).

 

A principal causa da diminuição do lince-ibérico ao longo do séc. XX foi o desaparecimento, por doença, da sua principal fonte de alimento: o coelho-bravo. Enquanto um lince-ibérico macho necessita de um coelho por dia, uma fêmea grávida come três coelhos por dia. Com fraca capacidade de se adaptar a outro tipo de alimentação, quando o vírus altamente contagioso conhecido por mixomatose, se espalhou na península ibérica em 1952, matando os coelhos, o lince quase desapareceu. Afetado pelas repercussões do desenvolvimento humano, ele também teve e tem de lidar com a perda do seu habitat principal, o matagal, como consequência da construção de barragens e estradas, e das mudanças no uso do solo (como o monocultivo de árvores) (FERRERAS et al., 2010).

 

Foi no final da década de 70 do século XX que o lince-ibérico se tornou então protagonista da maior campanha pela defesa de uma espécie animal em Portugal, quando se viu ameaçado por uma árvore, o pinheiro de Oregon (pseudotsuga), que iria ser plantado em massa na Serra da Malcata, com vista à produção de celulose. Alarmado com a potencial destruição do habitat do lince-ibérico – que ainda vivia na região – o biólogo Luís Palma criou então, junto com a Liga para a Proteção da Natureza-LPN, a campanha Salvemos o Lince e a Serra da Malcata!, que marcou o ano de 1979. A associação tinha poucos recursos, mas conseguiu mobilizar a própria máquina da administração central, que se juntou à luta. O Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico pagou a elaboração e impressão de um cartaz icónico, com a face de um lince-ibérico e os dizeres da campanha. Os cartazes foram impressos e distribuídos pelas escolas, e mais de 60 mil assinaturas foram recolhidas, num abaixo-assinado que acabou por travar o projeto de florestação. O estado acabou por a estabelecer um acordo para compensar os promotores com terrenos perto de Sines, e a Portucel viu-se obrigada a investir em outras zonas do país. Em 1981, a serra da Malcata foi  classificada como Reserva Natural (GARCIA, 2012).

 

A campanha pelo lince da serra da Malcata figura como um marco político assinalável  na história da política ambiental em Portugal (SCHMIDT, 2008). No entanto, a campanha, apesar de bem sucedida, não garantiu ao felino uma vida futura rica em saúde e liberdade. Além da mixomatose, uma nova doença, a hemorrágica viral, viria a arrasar em vagas sucessivas as populações de coelhos bravos, provocando o desaparecimento do lince-ibérico não só da Serra da Malcata, como de todo o país. Durante cerca de vinte anos não houve políticas eficazes para trazer o lince-ibérico de volta. Até que eclodiu uma nova polémica ambiental na década de 2000, provocada pela construção de uma barragem em Odelouca, na serra algarvia, outra zona de habitat do lince-ibérico, que alertou a sociedade para a necessidade da sua protecção (GARCIA, 2012).

 

O confronto entre ambientalistas, o governo que era o dono da obra, e a Comissão Europeia-CE que a financiava, levou a um acordo que viabilizou a barragem, mediante a condição de se proceder à construção de um centro de reprodução do lince-ibérico. Assim, surgiu, em maio de 2009, o primeiro Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro para o Lince-Ibérico, na herdade das Santinhas, em Silves, resultado de um esforço concertado e bem sucedido entre Portugal e a Espanha. Depois de  triplicar o número de linces-ibéricos na Andaluzia entre 2002 e 2012, deu-se uma intensificação da reintrodução de linces, com cinco centros de reprodução em cativeiro na península ibérica – quatro em Espanha e um em Portugal, através do programa LIFE+Iberlince (GARCIA, 2015).

 

Com a libertação de Mesquita, Malva e Mel, em fevereiro de 2016, subiu para 17 o número de linces-ibéricos a viverem livres na natureza no concelho de Mértola desde dezembro de 2014, quando começou a libertação de linces em território português e foi colocado nas estradas o novo sinal de trânsito: Atenção, linces. Entretanto, em maio e junho deste ano já nasceram duas ninhadas no Parque Natural do Vale do Guadiana, o que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas-ICNF considera ser um marco na conservação do lince-ibérico, uma vez que, desde há décadas, não se registava reprodução em ambiente natural com êxito comprovado em território nacional (TSF, 2016).

 

O trabalho desenvolvido no âmbito dos projetos LIFE/Lince permitiu que a espécie deixasse de ser considerada pré-extinta: em 2015 abandonou a categoria de alto risco para voltar a estar classificada como espécie em risco na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza-UICN. Ainda assim, o lince-ibérico continua sendo a espécie de felino mais ameaçada no mundo, e o carnívoro que mais corre perigo na Europa (GARCIA, 2015).

 

Apesar do sucesso dos programas de conservação, a decisão do governo português, a 8 de fevereiro de 2016,  de voltar a permitir a caça na Serra da Malcata, parece vir contrariá-lo, uma vez que, para a Associação Nacional de Defesa da Natureza-QUERCUS, além de não ter qualquer fundamentação científica, esta permissão pode colocar em causa a recuperação de várias espécies na região, como o corço, o veado ou o coelho-bravo, e ainda de espécies em perigo como o lince-ibérico, o lobo-ibérico ou o abutre-preto. Acusando o governo de ceder às pressões do lobby da caça, a QUERCUS adverte que está prevista a libertação de linces-ibéricos nesta área protegida, salientando que a reserva natural  já enfrenta graves problemas de caça furtiva, pelo que a opção de permitir a caça nesta área protegida só vai agravar os problemas de fiscalização, e lembra que o abate a tiro é uma das principais causas de morte não natural do lince-ibérico e do lobo-ibérico (TVI 24H, 2016).

 

Assim, com a discussão e a aprovação em abril de 2016 na AR dos projetos do Bloco de Esquerda-BE e do Partido Pessoas-Animais-Natureza-PAN que defendem a proibição da caça na Serra da Malcata, aumenta a pressão sobre o governo (ESQUERDA.NET, 2016).

 

A soma dos 17 linces ibéricos libertados e vivos e das cinco crias nascidas no Parque Natural do Vale do Guadiana perfaz um total de 22 linces ibéricos que hoje vivem livres na natureza em Portugal.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CLAVERO, Miguel; DELIBES, Miguel. Using historical accounts to set conservation baselines: the case of Lynx species in Spain. Biodiversity Conservation. 2013.

 

ESQUERDA.Net. Parlamento quer proibição da caça na Serra da Malcata. Esquerda.net. 29 abr. 2016.

 

FERRERAS, P.; RODRIGUES, A.; PALOMARES, F.; DELIBES, M. Iberian lynx: the uncertain future of a critically endangered cat. In: Macdonald, D.W. & Loveridge, A. Biology and Conservation of Wild Felids Oxford, Reino Unido: Oxford University Press, p. 507–520. 2010.

 

GARCIA, Ricardo. Uma barragem no Algarve salvou a campanha da Malcata. O Público, 16 dez. 2012.

 

GARCIA, Ricardo. Lince ibérico deixa de ser uma espécie "criticamente em perigo”. O Público, 23 jun. 2015.

 

SCHMIDT, Luísa. Ambiente e políticas ambientais: escalas e desajustes - marcos da política ambiental em Portugal (1967-2005), Itinerários : a investigação nos 25 anos do ICS/ org: Manuel Villaverde Cabral. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2008.

 

TSF. Nasceu a primeira cria de lince-ibérico em ambiente natural, TSF Radio Notícias, 5 mai. 2016.

 

TVI24h. Governo volta a permitir caça na Reserva Natural da Serra da Malcata. 12 fev. 2016.

 

30 de junho de 2016

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