Histórico de poluição ambiental e de lutas dos trabalhadores marca mobilizações no complexo industrial do Barreiro

A Companhia de União Fabril-CUF foi fundada em 1865, com sede em Lisboa, e dedicava-se principalmente à produção de sabão, velas de estearina e óleo, massa de purgueira e adubos. Em 1907, a empresa instala, na então vila do Barreiro (distrito de Setúbal), novas unidades fabris (RESTOS DE COLECÇÃO, 2012). Em 1908, a CUF começa a produzir ácidos numa uma unidade de transformação de óleo de bagaço de azeitona para fabrico de sabão, que emprega 100 operários. No ano seguinte, entra em funcionamento a primeira fábrica de ácido sulfúrico e de superfosfatos destinados à produção de adubos. Beneficiando-se do fácil acesso às pirites alentejanas, a empresa não para de crescer e transforma o Barreiro no maior centro fabril do país. Entre o final da década de 1950 até o século XXI, trabalham no complexo industrial da CUF mais de oito mil operários (RESTOS DE COLECÇÃO, 2012).

 

Por mais de sete décadas do século XX, um conglomerado de indústrias do universo CUF marcou a vida económica, financeira e social do país, tornando-se a CUF a principal empresa industrial a nível nacional e uma das mais relevantes na Península Ibérica (NOVOS LIVROS, 2014).

 

Neste complexo industrial, desenvolveu-se desde cedo uma ampla organização dos trabalhadores que reivindicavam melhores salários e melhores condições de trabalho. As greves tornaram-se constantes e, a partir da década de 1940, a ligação de um número expressivo dos trabalhadores ao Partido Comunista Português-PCP fez com que o Barreiro ficasse conhecido como a Cidade Vermelha, Capital do Trabalho (TALHADAS, 2013).

 

As precárias e insalubres condições de trabalho - caracterizadas pela poluição atmosférica -, associadas ao racionamento alimentar no período da Segunda Guerra Mundial, levaram a fortes mobilizações dos trabalhadores, fazendo que, em 1943, a vila industrial fosse invadida pelas forças militares da Guarda Nacional República-GNR e as portas da CUF ficassem fechadas durante um mês (CÂMARA MUNICIPAL DO BARREIRO, 2014). Os conflitos entre os trabalhadores e a GNR seriam constantes nos anos seguintes, até o fim do período ditatorial, em 1974.

 

Depois de 1974, os trabalhadores passaram a participar na gestão da empresa, tendo decidido, em assembleia geral, a nacionalização desta indústria. Neste período revolucionário houve mudanças estruturais na empresa, verificando-se a fusão das três maiores empresas de adubos do país: a CUF (1898), o Amoníaco Português (1941) e a Nitratos de Portugal (1957), que deram origem à Quimigal, em 1977, empresa que viria em breve a controlar 80% do mercado de adubos.

 

Data da década de 1970 a primeira marcha de protesto organizada pelos trabalhadores da zona têxtil contra os gases emitidos pelas fábricas de ácido sulfúrico, que deixavam a vila industrial com um nevoeiro permanente de gases tóxicos. Em 1973, foi constituída uma Comissão de Luta contra a Poluição, que reúne centenas de assinaturas que apoiam a luta contra a poluição atmosférica (BARREIROWEB.COM, 2010). Em 1982, os trabalhadores organizam uma intensa greve geral que resultou num despedimento significativo neste complexo industrial (BAIA, 2000).

 

Mais tarde, em 1997, dá-se a privatização da Quimigal Adubos. Com isto, a nova empresa alarga as suas atividades, integrando a produção de sementes da SAPEC AGRO, e dando origem à empresa Adubos de Portugal-ADP (ADP FERTILIZANTES, 2014).

 

Neste período, o passivo ambiental deste complexo industrial já era extenso. Durante décadas, o ácido sulfúrico usado na produção de adubos e noutros produtos destinados à indústria farmacêutica foi despejado no rio Tejo sem nenhum tratamento. A CUF/Quimigal não estava capacitada a nível técnico e científico para tratar os resíduos por ela produzidos. Uma das mais graves consequências desta situação foi a extinção da pesca no rio Tejo e o consequente encerramento da Fábrica das Ostras do Rosário, na Moita, onde chegaram a trabalhar 100 pessoas (TALHADAS, 2013). 

 

O Movimento Barreiro Património, Memória e Futuro procura preservar a memória do Barreiro e mostra a importância da luta dos antigos trabalhadores pela preservação do ambiente, da saúde pública e do ordenamento da cidade. Assim, através das lutas por melhores condições de trabalho, criou-se também uma tradição de luta no Barreiro contra projetos que comprometem o ambiente e a saúde pública da população local. Em 2010, houve uma forte movimentação popular contra a instalação de uma Estação de Tratamento de Resíduos Industrias Tóxicos-ETRI na região, no âmbito de uma proposta de incineração de resíduos industriais no Outão (Secil).

 

No ano de 2006, a Agência Portuguesa do Ambiente-APA e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo-CCDR LVT, colocaram em consulta pública dois projetos: a Instalação de Tratamento Físico-Químico e Armazenamento de Resíduos Industriais e o Projeto de Instalação de Transferência e Armazenamento de Resíduos Industriais. Estes projetos foram propostos pela empresa Quimitécnica Ambiente, que já possuí duas instalações em funcionamento, que distam entre si 500 metros.

 

Em setembro de 2007, o Movimento Barreiro Património Memória e Futuro posiciona-se contra a instalação dos dois projetos em consulta. Apresenta como principal argumento o fato de já existir uma Instalação de Transferência e Armazenamento de Resíduos Industriais-ITARI, em pleno coração da cidade, responsável pelo tratamento de 18.000 toneladas de resíduos industriais tóxicos e 12.000 toneladas de resíduos não perigosos (BARREIROWEB.COM, 2010).

 

Na altura, o resumo não técnico afirmava que os solos da Quimiparque, o leito do rio Tejo e as águas subterrâneas estavam contaminados por metais pesados, entre eles chumbo, mercúrio, bário, cobre, níquel, cádmio, zinco e também por arsénio (BARREIROWEB.COM, 2010).

 

Em fevereiro de 2011, iniciou-se a remoção de lamas de zinco do território abrangido pela Quimigal. A operação abrangeu uma área de 600 hectares que incluiu a zona ocupada pela Siderurgia Nacional, concelho de Seixal, que, numa 1ª fase, deu prioridade ao tratamento da Lagoa da Palmeira, um dos braços do rio Coina (CORREIO DA MANHÃ, 2011). O projeto Arco Ribeirinho Sul tem à sua responsabilidade a requalificação de duas zonas industriais mais poluídas da margem Sul do rio Tejo. Para a realização desta primeira fase de resolução dos passivos ambientais, a empresa responsável pelo processo – Empresa Geral de Fomento S.A. –EGF, sub-holding do Grupo Águas de Portugal, conta com um investimento de mais de 4 milhões de euros, estimando-se a retirada de 52 mil toneladas de lama (JORNAL PÚBLICO, 2011; CORREIO DA MANHÃ, 2011).

 

O vereador da Câmara Municipal do Barreiro, responsável pela pasta de Planeamento e Gestão Urbana, destaca como positivo o início desta ação, mesmo sem aprovação do Plano de Urbanização para o território, ainda em fase de consulta pública em 2011. Adiantava que, após a requalificação do território, pretendia atrair para a região mais 15 mil novos habitantes (CORREIO DA MANHÃ, 2011).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ADP FERTILIZANTES. História. Site, 2014.

 

BAÍA, Etelvina. Trabalhadores da CUF sanearam administradores. Setúbal na Rede, 12 jun. 2000.

 

BARREIROWEB.COM. Movimento de cidadãos, está contra o projeto de instalação de transferência e armazenagem de resíduos industriais no Barreiro. Notícias, Magazine Digital Objetiva Barreiro, n 1, dez. 2010.

 

CÂMARA MUNICIPAL DO BARREIRO. Indústria Química – Companhia União Fabril. Notícias, 18 fev. 2014.

 

CORREIO DA MANHÃ. 94 milhões para limpar Barreiro e Seixal. Notícias, 9 de fev. 2011.

 

JORNAL PÚBLICO. Arranca hoje limpeza da Quimiparque no Barreiro. Notícias, 8 fev. 2011.

 

NOVOS LIVROS. A marca vitriólica do Barreiro. Blog Uma Revista de Leitores para Leitores, 18 set. 2014.

 

RESTOS DE COLEÇÃO. CUF – Companhia União Fabril. 12 fev. 2012.

 

TALHADAS, Ercília. Um contributo para a história do trabalho. MONTEIRO, Bruno; PEREIRA, Joana D. De pé sobre a terra. Estudos sobre a indústria, o trabalho e o movimento operário em Portugal. Capítulo IX. Universidade do Porto: Instituto de Sociologia; Universidade Nova de Lisboa: Instituto de História Contemporânea, 2013.

 

30 de junho de 2016

Mapa

INFORMAÇÕES GERAIS

 

Duração: 1970 -

Região: Lisboa

Distrito: Setúbal

Localização: Barreiro

Grau de intensidade: 3/5

GPS: 38.6668, -9.0666

 

RESUMO

Reconhecido pelas lutas operárias que ocorreram ao longo do século XX, o complexo industrial Quimigal do Barreiro deixou um grande passivo ambiental, cuja reconversão está em aberto e é reivindicada pela população e por entidades ambientalistas.

R_ReE_Quimigal_12.jpg
R_ReE_Quimigal_11.jpg
R_ReE_Quimigal_10.jpg
R_ReE_Quimigal_9.jpg
R_ReE_Quimigal_8.jpg
R_ReE_Quimigal_7.jpg
R_ReE_Quimigal_6.jpg
R_ReE_Quimigal_5.jpg
R_ReE_Quimigal_4.jpg